Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Roda-Viva


Foto: Joana (Flickr: no, I'm not, I'm very married)



(Deve ser lido ao som da música)


Todos começamos da mesma forma.
Primeiro gatinhamos, depois vêm os primeiros passos.
Passos de bebé: curtos. Inseguros como tu!
Andas agarrado às coisas. Cais. Choras. Levantas-te. Voltas a cair. Voltas a levantar-te. Vais ganhando confiança e um dia descobres que já consegues andar sozinho.
De trouxa às costas, decides ir correr mundo. Andar e correr pelo mundo. Caminhas com a segurança de que o mundo é teu. Um mundo à tua espera. Um mundo que não pode esperar.
Corres. Saltas. Avanças. No sorriso tens a felicidade da descoberta. Tanto por ver; tanto por sentir.
Não te cansas. Não descansas. E não paras. Nunca.
Fechas os olhos, sentes a velocidade e a brisa no rosto.
Sentes o sol e a chuva. O frio. O calor. O vento. O dia. A noite. E a certeza de que o mundo é um lugar seguro.
De repente abres os olhos e vês.
Olhas e reparas. Na verdade, nunca saíste do mesmo lugar!
Corres em círculos. Descobres que a vida não passa de um carrossel que gira à tua volta e tu, lá dentro, não o consegues parar. Não tens força para o controlar.
Ouves, lá longe, o realejo. O ritmo aumenta e tu tentas acompanhá-lo.
Velocidade. Vertigem. Medo. Coragem. Fúria. Silêncio. Paz. Guerra. Início. Fim. Recomeço. Queda. Ascensão. Partida. Chegada. Avanço. Recuo. Dúvida. Certeza. Problema. Solução. Desespero. Esperança. Dor. Prazer. Vida. Morte. Fome. Pão. Velocidade. Náusea.
Tudo ao mesmo tempo e tu sem saberes para onde olhar.
Descobres que menos que tudo é nada.
Esforço. Mais uma tentativa de agarrar a vida. Uma tentativa vã de a controlar.
A roda gigante continua, implacável. Nada a detém.
E o tempo lá fora que corre, voa... Inexorável.
Sentes as pernas a fraquejar.
Sentas-te no chão frio. Exausto. Esgotado. Extenuado.
Enjoo. Nojo. Náusea. E o mundo não pára de girar.
Suspenso, imóvel, vencido, esperas por uma oportunidade para recomeçar.

Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Paredes de Silêncio



Foto: Striatic










Um longo silêncio...
Não há nada a dizer. Emudeci. Calei-me.
As paredes do silêncio são brancas. Podemos pegar numa lata de tinta, num pincel e pintar nelas ideias, conceitos, pensamentos, teorias. Palavras.


E quando não há mais nada a dizer? - Dizemos trivialidades!
Porquê? - Para matar o silêncio!
O silêncio é mau? – Incomoda.
Porquê? - Porque nos obriga a pensar. O silêncio é ausência.
Então as paredes do silêncio não deveriam ser pretas? - Fazes perguntas difíceis...
As perguntas não são difíceis. Tu é que nem sempre tens resposta para tudo! - ....
Também estás ausente? - ....
O que é o silêncio? - É solidão. Ninguém aguenta a solidão durante muito tempo...
E o silêncio? - Um dia, sem mais nem menos, reaprendemos a falar. Reaprendemos as palavras. Nesse dia, quebra-se o silêncio.
E a solidão? Desaparece? – Não... mas sente-se mais acompanhada.